Inúmeras
vezes vemo-nos expostos a situações limítrofes na vida as quais revelam facetas
de nossa alma que jamais suspeitávamos possuir. A rejeição é um poderoso
combustível inflamável; primeiro incendeia; depois, transforma tudo em cinzas,
frias e mortas. Frias?! Mortas?! Nem sempre. A rejeição pode provocar o
surgimento de alguém que sobreviveu às cinzas e age por conta própria, à
revelia da nossa lógica. A rejeição é a ressaca moral da traição. A traição é o
golpe pelas costas no que há de mais nobre em qualquer relação: a confiança.
Quando
nos envolvemos amorosamente, é inevitável que projetemos nessa pessoa o nosso
ideal romântico. No momento em que nos interessamos por alguém, é porque algo
naquela pessoa veio ao encontro de nossas expectativas e necessidades
emocionais, sejam elas conscientes ou não. No período inicial de um
relacionamento, ocorre uma espécie de encantamento. Como num truque de mágica,
nossos olhos ganham um misterioso e invisível equipamento que nos impede de
enxergar no outro qualquer traço de imperfeição ou fraqueza. Caso isso não
fosse verdade, a maioria dos relacionamentos amorosos não passaria do primeiro
encontro.
Ocorre
que o aparato genial não dura muito tempo. No decorrer da relação, nossa visão
apaixonada vai voltando a adquirir a antiga capacidade de ver. E, diante de
nossos perplexos olhos, vai se descortinando um ser desconhecido. Aquela aura
aventureira que nos atraiu no início, agora parece mais com um comportamento
infantil e irresponsável. Aquele jeito irresistível de “animalzinho sem dono”
que derreteu nosso coração, agora soa apelativo e lamurioso, revela uma pessoa
frágil e dependente. Aquela capacidade de atrair a atenção de todos sem fazer
esforço, que nos pareceu tão sedutora, agora nos magoa; parece que estamos
sempre em segundo plano. Sim, somos todos nós seres muito estranhos!
Até
que ponto, fazemos escolhas racionais quando se trata de nossa vida amorosa?
Difícil saber. A verdade é que fica muito evidente que apaixonar-se não tem
nada de racional. É um acontecimento físico, químico e biológico que dispensa a
participação da razão. Manda o bom senso dar uma volta e se joga!
O
fato é que, algumas pessoas ao experimentarem a inebriante experiência da
paixão, ousam dar um próximo passo na estrada das relações amorosas e se
dispõem a compartilhar alguns momentos, espaços e vivências de suas individuais
existências com o outro. Assim nasce um casal; cheio de expectativas,
projeções, sonhos, borboletas no estômago, projetos e desejos concretos. Os
casais iniciantes veem coisas que nem existem. Coincidências, sincronismos,
planejamentos dos astros. Alguns se arriscam a dizer que encontraram sua “alma
gêmea”. Mas, afinal, por que diabos alguém iria ser feliz com sua alma gêmea?!
Por definição, alma gêmea é uma coisa recortada; é a outra metade de nós.
Acontece que nós não somos metades. Somos inteiros. E inteiros procuramos nos
encaixar com outro ser inteiro. Nós sonhamos que o outro seja metade e o outro
sonha que nós sejamos metade. Ou seja, esperamos que o outro abra mão de metade
dele para que a nossa metade possa caber. É uma loucura! É um absurdo! Mas,
fazemos isso o tempo todo.
O
mito do amor perfeito é autoexplicativo: é um mito! O alvo do amor perfeito é
visto, de forma consciente ou não, como o principal responsável pela satisfação
dos nossos desejos e necessidades mais íntimos. Sonhamos com um parceiro que
seja quase um vidente, uma pitonisa que tem o poder de adivinhar nossos anseios
e sonhos mais secretos. E corremos o risco de passarmos a tratar o alvo de
nosso afeto como algo descartável, caso não corresponda às nossas projeções.
No
mito do amor romântico, só há espaço para o sofrimento no início do encontro,
na fase da conquista. Na sua continuidade, só pode haver beleza, felicidade e
contemplação dos desejos. A expressão “felizes
para sempre” encerra a história; desconsiderando que, é a partir daquele
momento que virão os desafios da relação. A idealização da felicidade a dois,
ignora o empenho de ambos para continuar a ser inteiro, e não metade, e a
partir disso dispor-se a acolher o outro sem aglutiná-lo, anular seus desejos
ou moldá-lo à sua imagem e semelhança. O processo humano na busca pelo amor é
doloroso, requer abrir mão da fantasia, tirar o outro do altar e descer do
pedestal.
A
vida nos mostra que as transformações mágicas não acontecem. Abóboras não se
transformam em carruagens. O outro não se transforma naquilo que idealizamos
como par ideal. O outro é quem ele é. Com suas imperfeições e áreas
fascinantes, com seus medos e coragens, com suas mazelas e virtudes. O tempo é
que vai tirando o brilho do que era fascinante e colocando luz de holofote nas
imperfeições. À medida que o outro não corresponde ao nosso ideal, ficamos
magoados e amargos. O pior é que, muito provavelmente, o nosso viço também pode
ter se perdido no tempo aos olhos do outro.
E
é nesse limiar do desencontro que já foi encontro que corremos o enorme risco
de jogar fora a maior virtude que podemos oferecer e esperar de um parceiro: a
lealdade. Em nosso precário senso de justiça, nos sentimos ludibriados pela fantasia
que não se realizou. Vamos deixando a nossa história virar passado quando ela
ainda é presente. Queremos de novo a emoção. Queremos sentir outra vez a
expectativa de encontrar o amor perfeito. Abrimos a guarda e fechamos os olhos
para o que é ético. Nossa satisfação precisa ser contemplada acima de tudo,
afinal! É nesse cenário que, muitas vezes, acabamos embarcando numa outra
história e acreditando em um novo “felizes
para sempre”, sem nos lembrarmos de avisar ao outro que ele não é mais o
personagem principal.
Aquele
que trai, nunca vai ser capaz de mensurar a dor daquele que foi traído. A
traição é a saída fácil para o mito do amor perfeito que não se concretizou. É
uma escolha covarde, desonesta e vil. O fim de uma relação não pode acontecer
aprisionada numa cela fria, úmida e malcheirosa como essa. O fim de uma relação
merece a presença inteira de duas pessoas que um dia ousaram viver uma
experiência de amor. Não éramos metades antes, não somos metades agora. E,
precisamos estar inteiros para compreendermos que não somos perfeitos. Somos
seres possíveis à procura de outros seres possíveis, que estejam dispostos a se
aventurar pela vida conosco na difícil missão de construir uma relação
verdadeira.
