Artifícios
suaves e estrambóticos para você mesmo espantar o chamado demônio do meio-dia.
Segundo
a Organização Mundial de Saúde, a depressão é a maior causa de incapacitação de
adultos e afeta 120 milhões de pessoas em todo o mundo (17 milhões no Brasil).
Na literatura médica, as diretrizes para o tratamento de primeira linha são os
antidepressivos de última geração, mais seletivos farmacologicamente, com
melhores índices terapêuticos e menor incidência de efeitos colaterais. Uma
opção comum é o uso de inibidores seletivos de recaptação da serotonina
(ISRSs), como sertralina ou fluoxetina, associados ou não à psicoterapia
comportamental.
Cerca
de 30% a 50% dos casos não reagem à primeira tentativa. Na maioria das vezes, é
preciso no mínimo duas semanas para o remédio fazer efeito. Alguns pacientes só
melhoram após seis semanas, e, pior ainda, há os que vão aumentando a dose,
aguardam meses e finalmente desistem, por falta de resposta. Esses irão
recorrer a um segundo, a um terceiro e a um quarto tipo de medicamento - as
estatísticas mostram que até 50% dos pacientes não respondedores a uma primeira
tentativa também não responderão a um segundo curso de tratamento diferente. De
fato, a probabilidade de reagir a um antidepressivo declina num fator de
aproximadamente 15% a 20% para cada tratamento anterior que tenha falhado.
Pensando
nessas pobres almas é que efetuamos um guia com técnicas pitorescas para
afastar a depressão, atenuantes temporários para aquelas duas semanas de espera
ou após a décima consulta fracassada, enquanto a cura não vem. Essas soluções
mambembes não substituem nenhum tipo de intervenção medicamentosa ou
psicoterapêutica e se destinam apenas a gerar distração em pacientes para os
quais cada gole d’água é excessivamente trabalhoso.
Andrew
Solomon, em O Demônio do Meio-Dia, um dos melhores tratados sobre a depressão,
conta a história de uma sobrevivente do campo de concentração de Dachau que,
para não enlouquecer, decidiu pensar apenas em seus cabelos. “Pensava em quando poderia lavá-los; em
tentar penteá-los com meus dedos. Passava horas combatendo os piolhos. Isso
fazia com que minha mente se concentrasse em algo sobre o qual eu podia exercer
algum controle, e preenchia minha mente de tal modo que me permitisse deixar de
fora a realidade dos acontecimentos à minha volta, possibilitando que eu
atravessasse aquele período.”
Além
de saudavelmente dispersivas, essas técnicas servem para que os pacientes
aprendam comportamentos que possam protegê-los contra uma piora ou recidiva.
Um
dos princípios fundamentais da terapia cognitivo-comportamental é a relação
existente entre situação, pensamento, sentimento e comportamento, de modo que a
mudança de só um desses itens influenciaria todos os outros. A estratégia
subjacente da TCC, portanto, seria forçar o pensamento a seguir certos padrões
e assim evitar os caminhos habituais que levam à depressão.
Ou
vice-versa. Nesse caso, uma das táticas possíveis é monitorar as atividades
diárias e estimular as que são geradoras de prazer, acrescentando sempre algo
de agradável ao longo do dia. Além de teoricamente válida, essa estratégia tem
lá seus atrativos.
Na
depressão, o paciente perde o gosto pelas coisas, e a chave é encontrar algo
que ainda conserve em si um fiapo de diversão, como um sorvete na geladeira ou
a foto de um bebê envolto numa margarida, e ir assim recuperando os prazeres,
um a um. O benefício dessas tarefas é ativar o circuito estímulo-recompensa
associado a atividades manuais. Na doença, há falta de gratificações, de
concentração, de movimento, de estímulos. Experimentos já mostraram que tarefas
como limpar o chão ou organizar as gavetas incentivam a produção de substâncias
que deixam o sujeito mais persistente e concentrado. A questão não é o que se
faz, mas aonde se chega com o esforço.
A
seguir, apresentamos dez sugestões para despistar a depressão, sem ter que
apontar alguma coisa a distância e gritar: “olha
lá! Uma salsicha falante!”
1.
Fazer coisas com fios
No
livro de Solomon, uma moça conta que passou anos trocando de medicação, sem
sucesso, até que finalmente descobriu a solução verdadeira para curar a
depressão: “Fazer coisas com fios”.
Eis aí a primeira sugestão.
Nessa
categoria, incluem-se trabalhos artesanais que tragam relaxamento e satisfação,
como costurar, tricotar, pintar, desenhar, esculpir, espremer gelatina,
consertar um radinho de pilhas, martelar a esmo, pintar as unhas dos pés (dos
outros), montar uma armadilha de dominós e cobrir as paredes de tinta amarela.
É importante usar as mãos, pois elas dão uma importante sensação de controle.
Sujar-se é igualmente recomendado.
2.
Aprender sapateado
Um
leitor de Andrew Solomon ofereceu-se para ajudá-lo a encontrar um bom professor
de sapateado. Nesse campo, vale tudo: inscrever-se em aulas de rockabilly,
aprender o chá-chá-chá, comprar uma cama elástica, pular corda, inscrever-se
num curso para terceira idade no Sesc, assistir a uma videoaula de artes
marciais, jogar badminton, andar de bicicleta. Vale também optar por videogames
bruscos como o Wii.
3.
Mexer com terra
Aqui
se inclui todo tipo de contato com o chão, seja na jardinagem, seja na
escultura de areia, rolando ou deitando na grama do parque. Esticar-se para
acompanhar o passeio de suas tartarugas sob o ponto de vista dos quelônios
também vale. O fator sujeira está implícito na atividade e é mandatório. Ainda
que não haja comprovação estatística, é certo que sentar-se no chão sem motivos
específicos ajuda a tratar moléstias do humor.
Ainda
nessa categoria, aproveitamos para incluir um dos melhores antidepressivos que
existem: o sol, de preferência no cocoruto, como fazem as tartarugas a fim de
secar suas dobrinhas existenciais (esticando ao máximo as patas traseiras). O
mar também se aplica, sobretudo se vier acompanhado de vento.
4.
Render-se ao videoquê
Escolher
as músicas mais bregas no Guitar Hero ou num bar de videoquê pode ser vital
para a recuperação de um deprimido reincidente. Entre as sugestões mais
sensatas podemos destacar o heavy metal melódico, os refrões estridentes de
clássicos do rock, os Twisted Sisters e, é claro, o infalível Ney Matogrosso.
Quanto mais gritaria, melhor. Quanto mais desafinado, também.
5.
Solucionar mistérios
Lançar-se
em busca de uma caneta perdida, um quebra-cabeças de 4 mil peças, a série de
jogos do Professor Layton, os extras de um filme ruim, um livro de palavras
cruzadas, a vida do vizinho da frente, um crime imaginário. O importante é se
envolver pela coisa: procurar tudo sobre Joseph Mengele, Bob Esponja, as
guerras púnicas, Perdidos no Espaço e o lento cozimento das alcachofras. Jogos
de tabuleiro se incluem nesta categoria.
6.
Ligar o radinho de pilha
O
pesquisador Seth Roberts, do Departamento de Psicologia da Universidade da
Califórnia, sustenta a teoria de que há um tipo de depressão vinculada a
acordar sozinho, e que a experiência de assistir a um apresentador de TV
falando por uma hora no início do dia pode ajudar. Acrescentamos a isso a
presença constante de um radinho de pilha, sintonizado na faixa AM, de
preferência num programa de esportes ou de trânsito. Também serve ir puxar
conversa com o porteiro.
7.
Criar uma trilha sonora
Em
‘Alucinações Musicais’, o neurologista britânico Oliver Sacks afirma que
determinadas composições têm o poder de produzir efeitos num dado indivíduo, em
um momento específico. Ele cita o exemplo de um suicida que ouviu por acaso uma
passagem de Rapsódia para Contralto, de Brahms, e o som que antes lhe era
indiferente perfurou seu coração como uma adaga. “Numa torrente de rápidas recordações, pensei em todas as alegrias que
a casa conhecera: as crianças que haviam corrido por seus cômodos, as festas, o
amor e o trabalho”, disse ele. “Algo
dentro de mim aqueceu-se e me amoleceu”, conta outra paciente.
Não
dá para prever o tipo de música capaz de vencer a barreira e liberar os
sentimentos entupidos de alguém. Todavia, isso não nos impede de elaborar uma
trilha sonora específica para os momentos de crise - podem ser faixas alegres,
trágicas, evocativas, enfim, que possam causar algum tipo de impressão. Convém
testar a reação pessoal a diferentes tipos de música, pois às vezes a chave
está na batida - a bossa nova, por exemplo, costuma dar certo com os apáticos.
O punk rock pode aliviar espíritos melancólicos, ao passo que o rockabilly tem
o benefício de incentivar o ouvinte a arriscar uns passos de dança. Há quem
tenha superado a depressão com uma hora diária de remelexo ao som de ritmos
caribenhos.
Alguns títulos que não têm como dar errado: ‘On the
Sunny Side of the Street’, Louis Armstrong; ‘I Feel Good’, James Brown; ‘Good
Vibrations’, Beach Boys; ‘Here Comes the Sun’, Beatles; ‘O Jumento’, Chico
Buarque; ‘Cheek to Cheek’, Fred Astaire; ‘I Got Rhythm’, Ella Fitzgerald; ‘Rock
and Roll All Nite’, Kiss; ‘Hallelujah’, Leonard Cohen; ‘Potato Head Blues’,
Louis Armstrong; ‘Lithium’, Nirvana; ‘Alive’, Pearl Jam; ‘Do You Wanna Dance?’,
Ramones; ‘Today’, Smashing Pumpkins; ‘So Happy Together’, The Turtles; ‘Island
in the Sun’, Weezer; ‘Beautiful Day’, U2; ‘Song 2’, Blur; ‘Don’t Worry Be Happy’,
Bobby MacFerrin; ‘Shiny Happy People’, R.E.M.; ‘Paradise City’, Guns N’ Roses; ‘Blue
Skies’, Ella Fitzgerald; e, por fim, ‘O Pato’ e ‘Bolinha de Papel’, João
Gilberto.
Só
tome cuidado para não ouvir sem querer ‘I Am a Man of Constant Sorrow’, de Bob
Dylan, nem o último álbum do Radiohead, para não invalidar completamente todo o
tratamento.
8.
Preparar coletâneas
Pode
ser uma lista de sobremesas distribuídas pelos dias da semana. Ou um catálogo
pessoal de livros, poemas ou contos favoritos. Pode ser uma coletânea dos
melhores amigos (segunda é dia do Cabelo, terça é do Bruno e do Bob). Ou de
programas tolos para experimentar (ir ao zoológico, ao planetário, ao sítio da
incrível morsa turca que dança). É importante registrar seu best of pessoal, a fim de evocá-lo em
momentos sombrios.
9.
Descascar pepinos
Em
‘O Demônio do Meio-Dia’ há a história de uma moça que passou horas sem conta tentando
ensinar à companheira de quarto como descascar um pepino. Nessa categoria, são
válidas todas as interações sociais, por mais fugazes que sejam, sobretudo com
desconhecidos.
Nesse
mesmo livro, há o relato de uma sobrevivente do massacre cambojano que
praticava a psicologia com esmaltes coloridos, empurradores de cutícula,
toalhas e lixas de unha. Ela começou a fazer as mãos e os pés das amigas, que
pouco a pouco se puseram a dividir suas experiências.
10.
Apelar
Se
nada disso funcionar, é hora de partir para a ignorância. Filmes dos Irmãos
Marx, livros de piadas do Costinha, trocadilhos, romances do Douglas Adams,
textos do Woody Allen, palhaços, mágicos, engolidores de fogo e a piada mortal,
que é a seguinte:
“Era uma vez um porquinho que
tinha uma perna só. Ele foi se coçar e caiu.” (autor desconhecido)
Para
Solomon, o senso de humor é o maior indicativo de que o indivíduo se
recuperará. “Aguente o tempo de espera e
ocupe esse tempo tão plenamente quanto puder”, recomenda.
E
termina com uma nota esperançosa: “Pessoas
que atravessaram uma depressão e estão estabilizadas frequentemente têm uma
aguda consciência da alegria da existência cotidiana. Mostram-se capazes de uma
espécie de êxtase imediato e de uma intensa apreciação por tudo que é bom em suas
vidas”. Ou seja: valorizam o chocolate, o tricô, as tartarugas, o desenho
do Bob Esponja, o rádio de pilha, o mar, o glorioso time do Olaria e o vizinho
da frente, que, dizem, é a cara do ator Dudley Moore.
Via: Revista Vida Simples
