Sobre amar alguém que não se lembra do seu nome.



Doença de Alzheimer: Perda das funções cognitivas causada pela morte de células cerebrais.
Você se lembra do dia em que tiramos essa foto? Tudo bem, eu também não. Mas nós parecíamos felizes, e sei que estávamos porque assumir outro estado de espírito ao seu lado costumava significar um trabalho quase tão árduo quanto te ajudar – ou atrapalhar – pintando os canteiros do jardim durante as suas tardes boas. Foi tão fácil para você substituir nosso banquinho azul de madeira pela poltrona de couro marrom, que eu me pergunto se perdi algum sinal de que iria estacionar no tempo.
Agora compartilhamos a mesma sala, mas não a mesma dimensão, minhas mãos seguram as suas desejando silenciosamente por qualquer estímulo atemporal que nos mantenha devidamente juntos e, como resposta, você me pede para trocar o canal da TV novamente, já que a sua consciência desacredita das dez vezes em que fiz isso na última hora. Mesmo não reconhecendo o tom falho (quase rouco) da sua voz, eu aperto a tecla do controle remoto.

Como quem vai da sala até a cozinha, você passa de apático para inquieto em poucos segundos. Quer se levantar, me diz que precisa ir até o tribunal e eu tento te explicar que está aposentado, mas logo desisto e divago contigo. O andador funciona como aquele amigo que as circunstâncias da vida afastam de nós, e se mostra incapaz de sustentar a falta de vitalidade das suas pernas, você desaba sentado outra vez na poltrona, essa sim, útil e cômoda, enquanto eu penso sobre o quanto sinto por precisar deste apelo para te provar que os seus passos inexistiram junto a lembrança contínua do meu nome em sua mente.
Insiste em deixar a casa porque esse não é seu teto, seu chão, seu quarto. Eu tento recontar as mesmas histórias que narrou incansáveis vezes para mim, quando seu raciocínio ainda favorecia as suas palavras, mas não sou tão boa nisso quanto você. Recebo ajuda e te empurro até lá fora, com menos entusiasmo, mas com o mesmo cuidado com o qual você me impulsionava no balanço vermelho, te convenço de que está tarde e não há tarefa inadiável – exceto quando se trata do amor.
Queria te livrar dessa cadeira de rodas para te esperar me buscar na porta da faculdade como fazia quando eu estava na escola. Me segurando pela nuca para atravessarmos a rua e esquecendo todo o zelo assim que um rosto conhecido te cumprimentava do outro lado da calçada, inconscientemente, hoje minhas mãos agarram de forma carinhosa o verso do pescoço da minha irmã, como faziam comigo as suas, no caminho de volta para casa.
Mais do que os meus ombros doeram ao te transferir do seu condutor doméstico para a cama, doeu meu coração ao sentir que os seus dedos faziam o papel dos meus e apertavam minhas mãos, como se a prova de que a atmosfera que te cerca é real e estivesse entre as nossas lacunas.
Eu estou guardando o seu sorriso levado junto ao apreço pela cicatriz que me corta o peito. É ao captar os seus detalhes e relembrar o seu amor que me deu uma tatuagem, que discordo do que eles dizem, o Alzheimer é o excesso de memórias e é por isso que você se perdeu em algum período entre o antes e o agora, eu vou contigo porque não posso te trazer de volta.
Esse texto não fala das alegrias sobre nós porque nele eu só quero deixar registrado o seu aflito e mais recente recado: se você ama alguém, não perca tempo encontrando modos para deixa-lo saber. Perdoe, viva limpo, seja claro, abstenha-se do ego.
Política é importante, mas você já amou hoje?

Via: Obvious