Faz
pouco que descobri: toda mãe é um pouco o Rivotril de seus filhos. Rivotril,
pra quem não conhece, é um ansiolítico que figura como - pasmem! - o segundo
medicamento mais vendido no país, só perdendo para uma conhecida marca de
anticoncepcional. Tem efeito rápido, quase instantâneo, contra a ansiedade.
Assim como ouvir a voz tranquilizadora da sua mãe.
Na
verdade, enquanto os dias correm tranquilos, sem maiores sobressaltos, a gente
nem lembra que tem mãe. Basta saber que ela está lá, de sobreaviso e prontidão
como o salva-vidas na guarita da praia. Como o remédio jogado no fundo da
bolsa. Em caso de necessidade, uma chamada ou um comprimido resolvem. Ambos
estão ao alcance da mão.
A
diferença essencial é que mãe, além de acalmar, ainda dá colo e perspectivas.
Mãe sabe onde dói, sabe por que dói, tem o dom de farejar algumas dores futuras
e, por isso, sempre prescreve conselhos. Só o que mãe não sabe, é que muitas
vezes, pela ânsia de preservar o filho de tanta dor, ela o impede de crescer.
Sim, porque crescer é dolorido, às vezes até fisicamente. Basta lembrar do
incômodo que é para o bebê o nascer dos dentes. Ou ouvir falar da dor nas
pernas das crianças de oito anos. Ou ainda recordar as dores mamárias das
meninas na puberdade. Pois que sejam as dores de ordem física ou emocional, a
única certeza na vida é a de que “viver
dói até o fim”. E também por isso a única coisa que uma mãe pode fazer, às
vezes, é deixar doer.
Dei-me
conta dessa dolorosa verdade quando, certa feita, no meio de uma dessas
ligações que filhos fazem quando a água está a lhes alcançar o pescoço, ou
seja, quando estão por alguma razão qualquer se sentindo sufocados, minha filha
me disse alguma coisa como “te liguei pra
você se solidarizar comigo, não para me afligir ainda mais”. Naquele
momento, me senti impotente, incapaz, mais ineficaz do que um Rivotril com data
de validade vencida. Custou-me tempo, introspecção e alguma dor até compreender
que também eu tive de ouvir palavras duras e ásperas para poder crescer. Também
eu tive de aprender a ler silêncios, a recolher angústias e medos do chão da
sala, e a reconhecer que cada um deve cavalgar a sua própria dor.
Além
disso, há uma outra boa razão para se permitir que a dor cumpra seu papel
também na vida dos filhos. É que as relações, assim como o Rivotril, também
podem causar dependência. Quando nos fazemos excessivamente presentes, acabamos
por adentrar um território que não mais nos pertence, e tolhemos o bonito
processo que é a individuação. Individuar-se é caminho que se percorre a sós,
afrouxando laços, soltando gradualmente as amarras que nos prendem ao ninho.
Quando aconselhamos demais, vigiamos demais, zelamos demais é como se não
confiássemos a tarefa de viver à própria vida. Sim, é custoso e às vezes nos
dói, mas é preciso deixá-los domar suas próprias feras, encarar seus temores,
recolher sonhos espatifados contra o chão do quarto. Aliás, é preciso deixá-los
sair do quarto, ganhar a casa, ganhar a rua, ganhar o mundo. Sim, é custoso e
às vezes nos dói, mas encorajar a independência - a deles próprios e a deles
para conosco - é um gesto de confiança e coragem que a própria vida nos cobra e
requer.
E
por falar em cobrança, também eu, euzinha mesmo, reivindico às vezes uma dose
ou outra do meu Rivotril que, por essa altura, está curtindo um merecido
descanso numa praia distante. Mas ela sabe, eu sei, minhas filhas sabem que a
uma simples ligação a distância se desfaz, o aconchego se refaz, o coração
torna a ficar em paz. Da mesma forma sabemos, havemos de saber todos nós, que
tudo é uma simples questão de se encontrar a justa e certa medida. Vale para o
remédio. Vale para a vida.
Via: Mania de Citação
