A linda homenagem de Fernanda Gentil às vítimas do acidente aéreo com a Chapecoense - uma reflexão para nossas vidas!
Mais
uma vez a vida fez planos pra gente, e não a gente pra ela... quis ela, sabe-se
lá por qual motivo, que esses jogadores, tripulantes e jornalistas tivessem
hoje seus sonhos interrompidos, quando o plano deles era apenas seguir. Seguir
para um jogo, uma matéria, um destino. Seguir e, sem dúvidas, voltar. Voltar
para suas casas, seus trabalhos, suas famílias... mas não vão. A maioria não
vai... o Gui Van der Laars, o Ari Junior e o Guilherme Marques, por exemplo,
não vão estar mais na redação. Não vão nos brindar mais com os sorrisos deles,
com as brincadeiras, com o talento, com a leveza com a qual levavam a vida. E a
vida deles não era menos especial que a minha ou a sua, muito pelo contrário!
Laars é pai de dois, e o terceiro vai nascer em menos de um mês. Guilherme
Marques uma revelação, novo, cheio de vida e sorrisos pra distribuir. Os dois
fizeram aniversário semana passada, assim como eu. Por sorte, fazemos em datas
diferentes, assim consegui abraçá-los em mais de um dia. E em todos eles
trocamos os melhores votos possíveis. Ari era um lord! Espirituoso, talentoso,
um homem-sorriso. E hoje, todos esses (e muitos outros) caras fenomenais se
foram... e então porque não pode acontecer com a gente? Claro que pode.
A
vida, antes de ir, ela não manda aviso não! Não comunica, não liga, não tem
WhatsApp. Aliás, a última mensagem do Gui pra mim no WhatsApp semana passada
foi “conta comigo, vou estar sempre aqui.”
Que dor, Gui... você disse que estaria, mas não está. E olha, lutei muito pra
não acreditar que vocês realmente não estariam mais. Fiz conta, refiz, chequei,
li a lista, procurei, fingi que não vi. Procurei de novo, fechei um olho,
re-re-refiz as contas, e vi a lista de novo... vocês continuavam lá. Depois da
confirmação da tragédia, vem a dor. E da dor nos resta tirar uma lição muito
importante: falar enquanto há tempo - falar em vida. Abraçar em vida. Amar em
vida. Perdoar em vida. Porque tudo isso é viver a vida. Falar todas as coisas
bonitas que falamos pra vocês hoje, para muitas outras pessoas que ainda estão
aqui e podem ler/ouvir. Aliás vocês mal se despediram da gente e já ensinaram
tantas coisas... tinham que ver o que os clubes brasileiros e do mundo todo
fizeram! Todos postando o escudo da Chape! Jogadores mandando recados, fazendo
minuto de silêncio! Autoridades decretando luto! Vocês hoje ensinaram que o que
importa é a vida, não um jogo, um time, uma cor, uma raça, uma competição.
Ensinaram que um título pode sim ser decidido fora de campo; nas nuvens, no
céu, num lugar bem melhor que esse aqui, e hoje ele foi: pode avisar aí em cima
que “o Atlético, num grande ato de
solidariedade, vai dar o título da Sul-Americana para a Chapecoense” (Gui,
essa pode ser a frase de abertura do seu vt, eu te empresto a ideia :)). O Ari
eu sei que vai fazer as imagens mais lindas da vida dele, e o Laars vai
caprichar nas exclusivas pro Esporte Espetacular desse domingo - que aliás vai
ser o programa mais difícil da minha vida. Não aprendi em curso ou faculdade
nenhuns a imparcialidade ou frieza jornalísticas necessárias para apresentar
num contexto desses - e espero nunca aprender. Prefiro o calor e o sentimento
humanos. Prefiro acreditar que o buraco que se abriu no peito de todos hoje
trouxe à tona muitas reflexões pessoais, e eu sei que trouxe. Vê se não é
assim: a gente pensa em amar mais, julgar menos, nos declarar mais, reclamar
menos, agradecer mais, se importar menos, agredir menos, viver mais... e em
questão de dias, esse “efeito” passa.
Só
que a gente não pode esquecer que em questões de dias, a vida também passa.
Então esse efeito tem que durar. Então por vocês três, por tantos outros que
estavam nesse avião, e, principalmente, pelos amigos e famílias que perderam
alguém querido, espero que a nossa reflexão nos faça mudar de verdade; e que
dessa vez esse “efeito” dure exatamente o mesmo tempo que a saudade de vocês
vai durar - pra sempre.
