Os
olhos são as janelas da alma, dizem. Nesse caso, devo ser algum tipo de cego
funcional. A maioria de nós é, mas romantiza, finge enxergar o que no fundo é
só pupila e íris. Sou do tipo que ainda acredita que ação diz mais que expressão
– sobretudo a facial.
O
amor é um fenômeno fisicamente involuntário. Mãos suam frio, pernas tremem,
estômagos reviram, línguas prolixas paralisam, cabeças rodopiam. É surpresa,
choque, balanço significativo em nossas estruturas mais sólidas. Não é o olhar
que diz “eu te amo”, é todo corpo,
cada pedaço dele, do maior ao menor.
Mais
valem mãos que agarram, bocas que beijam, corpos que se tocam. O olhar é
mensageiro. Pode anunciar intenções, enviar sinais sutis, mas é o modo como
agimos que conta de verdade. As ações dizem realmente quem somos, para o bem ou
para o mal.
Não
existem segredos nos olhos. O segredo está em quem olha, em quem é por eles
olhado.
Pouco
importa se é por abrir mão de uma noite com os amigos para ficar em casa
assistindo a um filme com Ryan Gosling ou por, de livre e espontânea vontade,
assumir a infame missão de apagar a luz antes de irem dormir. Na grandeza dos
gestos pequenos repousa o cuidado essencial. Aquele que nada exige além de
entrega sincera, de abertura para ser cuidado e para cuidar.
E
daí que os anos passam, a vida muda e o mundo gira? Gestos ficam, marcam
profundamente. É com eles que deixamos nossas pegadas na vida (na nossa e nas
vidas de outras pessoas), é com eles que construímos uma história. Só os
covardes culpam o tempo.
Agir
não é apenas falar que sentiu saudades, mas abraçar como quem sente saudade. É
também demonstrar com a ponta dos dedos enquanto faz cafuné; é tornar a memória
presente ao se lembrar de como exatamente a outra pessoa gosta de um prato ou
drinque enquanto o prepara.
Não
é preciso fogos de artifício. Não é preciso carros de mensagens espalhafatosos.
Só é preciso estar presente, se fazer presente pelos gestos.
Não
basta olhar. É preciso fazer-se letreiro e dizer com o próprio corpo “eu estou aqui. Eu estou aqui por você!”.
O
inerte põe nos olhos a culpa da sua imobilidade, dizendo que eles bastam para
manifestar suas intenções, enquanto quem age constrói um abrigo seguro para o
seu coração.
“O essencial é invisível aos
olhos”, escreveu
Saint-Exupéry. Clichê? Sim. Verdade? Também.
Jocê Rodrigues
