Gratidão
é palavra do momento, especialmente quando as coisas dão certo e estão
perfeitas aos nossos olhos, julgamentos e anseios. Então divulgamos a dádiva a
plenos pulmões, compartilhamos o êxito e vibramos com o merecimento.
O
que era para ser um gesto natural, obrigatório para as consciências conectadas
com o fluxo da vida, anda um tanto exacerbado. De todas as formas, melhor a
gratidão ruidosa do que a sua gêmea má que nada agradece.
Mas,
como nem tudo são flores e gratidões, nem vitórias, nem conquistas, difícil
mesmo é ser grato às frustrações pelas oportunidades de enxergar um outro
caminho, uma nova perspectiva.
Nessa
hora a gente pega a fatura vencida e apresenta para a vida, como o filho mimado
que corre chorando para dentro de casa com o brinquedo quebrado, exigindo a
compra de outro, como se não fosse sua escolha levá-lo para brincar na rua.
A
maioria de nós ainda age assim. Cobra da vida uma dívida que ela não tem conosco.
Ataca a sorte, responsabiliza as circunstâncias, amaldiçoa o acaso, exige
garantia infinita contra perdas, danos, terceiros e eventualmente, si próprio.
A
gratidão se recolhe no meio da fatura tão grande e impagável emitida contra a
vida dos que julgam possuir o passe exclusivo, a chave da sala vip onde nenhuma
contrariedade é permitida.
Mas,
assim como o tempo, a vida não dá bola para nossas tolas lamentações, e,
frustrados e mimados que somos, como não conseguimos atingir a verdadeira
culpada, vamos para outras direções, e então distribuímos sem economia o nosso
mal humor, pessimismo, irritação, impaciência, raiva e todos os derivados e
agregados que engrossam o time das frustrações.
Quando
a gente aprende que a vida não nos deve nada e as escolhas são passíveis de
fracasso, as contas são perdoadas, as dívidas caducam, as culpas se eximem e se
transformam em gratidão consciente e libertadora.
Emilia Freire
