Vida,
como vai? Ouvi dizer que você anda deixando gente doida por aí. Entorpecendo a
mente alheia com milhares de reviravoltas e acontecimentos inesperados. Como
assim? Não era o combinado. Tínhamos um plano, lembra? Era só você seguir. Mas,
não. Você desconsiderou tudo! No dia em que eu esperava o sol, você trouxe a
chuva. Quando estava chegando ao destino, furou meu pneu. Na viagem para a
Argentina, me assustou com o terremoto, na viagem para os Estados Unidos, com a
alta do dólar. No dia da festa, me presenteou com a espinha, no casamento da
minha amiga, com uma puta dor de barriga, além de outras mais, que você deve
bem lembrar. Ih, foram tantas surpresas.
No
dia em que choveu, eu não esperava ir ao cinema com aquele amigo, que virou meu
namorado. Eu gostava do João! Jamais iria me apaixonar de novo. Também não
esperava ter que aprender a me virar sozinha na estrada. No dia em que o pneu
furou, nem celular pegava. Tive que me virar nos 30, 40 e 60. Nem caminhoneiro,
que adora uma cantada, parava. No dia da festa, não imaginava que ainda fosse
capaz de me sentir bonita mesmo com uma cratera no meio da cara. Por que isso?
Espinhas deveriam nos deixar nojentas. Cancelar minhas viagens muito menos deveriam
fazer com que eu realmente visse o quanto é importante ficar em casa. Eu
gostava de passar um certo tempo longe. Eita, vida. Por que fez isso? Quando
meus amigos vieram me contar de todas as mudanças que você tinha aprontado com
eles, foi que eu me dei conta que meus rumos também foram traçados de uma forma
que eu nem queria, ou esperava.
Quanto
tempo teve que passar até eu enxergar que eu e você não estávamos mais seguindo
os mesmos passos? Quantas vezes eu me vi
lutando e correndo contra o que você já tinha estipulado? Que doidera isso
tudo. Eu, que nem acredito em destino, vi as coisas mudando numa fração de
segundos e me assustei. “Peraí, isso não
tá como planejei”. E foi aí que eu
finalmente entendi que não sou sua dona, vida. Você não é minha vida. Você é
simplesmente A VIDA. Minha e de todos. E tem suas razões, sejam elas quais são,
para nos tirar da zona de conforto, para nos ensinar lições, nos mostrar o bem
e o mal. E, sabe o mais estranho disso? É quando você vai lá e muda tudo, no
final das contas, fomos nós mesmos que, no nosso livre arbítrio, optamos por
fazer diferente. Vai entender.
Enfim,
vida, independente de todas essas milhares de descobertas e das nossas
diferenças, eu queria mesmo te dizer obrigada.
Obrigada por mudar meus caminhos para melhor, mesmo que eu só descubra
isso depois. Obrigada por fazer parte de mim e das pessoas ao meu redor. Sem
seus ensinamentos, eu nada seria. E, mais ainda, obrigada por me permitir
viver. Você é sobrenatural, vida. Você é incrível. Você é meu ser.
Ana Paula Mattar
